MUITAS HISTÓRIAS
Era quase um
ritual: chegava normalmente atrasado e a primeira coisa que fazia era ir ao
banheiro tentar se refazer do estresse que era andar do Metrô à sua cadeira, em
frente à porta de entrada.
Era muito
vaidoso, precisava estar bem-apessoado. Não tinha muito trabalho para fazer
isso, pois seus 1,84m, bem distribuídos em 70 quilos o favoreciam. Se achava
magro demais, queria engordar, mas para mim e para uma série de admiradoras ele
estava muito bem.
Todo dia
tinha uma história nova para me contar. Elas eram tantas e todas tão
praticamente absurdas que certa vez disse a ele: Ainda escrevo um livro com
suas aventuras. Ele riu gostosamente.
Rir não era
tudo que nos proporcionava momentos agradáveis, difíceis de serem esquecidos.
Conversar, comentar a novela das oito e o reality show, filosofar, confessar
fatos da meninice, contar os planos, falar das dores e até da vida dos outros
com muito humor. Tudo isso fazia parte da nossa convivência, do melhor que
podíamos extrair das oito horas diárias que passávamos juntos de segunda à
sexta-feira.
Um dia foi
demais: Ele bateu na minha porta, pedindo permissão para entrar. Balancei a
cabeça num sim risonho, pois já sabia que vinha história. Então ele começou a
contar que uma senhora obesa havia-se entalado na roleta e que o coletivo teve de
ser levado para a garagem. A situação não era cômica, mas ele me contava com
tanta indignação que só me restava rir.
As meninas
de pernas roliças, olhos amendoados e cachos bem definidos eram lindas. A
coleção toda era muito linda. Tinha ruiva, loura, morena e negra. De blusa de
alcinhas, calça saint-tropez e tamanquinhos, elas são a expressão da realidade
das adolescentes. Os traços que ele dá a elas é perfeito; exímio desenhista.
Um dia foi
demitido. Nunca mais tive notícias. O que sei sobre ele vem pelos outros.
Recentemente perdeu o irmão mais velho para a violência urbana, mas soube que
está superando bem a perda.
Éramos amigos e eu nem tinha me dado conta.
Para Augusto
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