LI E GOSTEI

“Quem tem amor e tem calma, tem calma... Não tem amor...”
A. Tavares

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Direto do meu pendrive (2)


MUITAS HISTÓRIAS

Era quase um ritual: chegava normalmente atrasado e a primeira coisa que fazia era ir ao banheiro tentar se refazer do estresse que era andar do Metrô à sua cadeira, em frente à porta de entrada.
Era muito vaidoso, precisava estar bem-apessoado. Não tinha muito trabalho para fazer isso, pois seus 1,84m, bem distribuídos em 70 quilos o favoreciam. Se achava magro demais, queria engordar, mas para mim e para uma série de admiradoras ele estava muito bem.
Todo dia tinha uma história nova para me contar. Elas eram tantas e todas tão praticamente absurdas que certa vez disse a ele: Ainda escrevo um livro com suas aventuras. Ele riu gostosamente.
Rir não era tudo que nos proporcionava momentos agradáveis, difíceis de serem esquecidos. Conversar, comentar a novela das oito e o reality show, filosofar, confessar fatos da meninice, contar os planos, falar das dores e até da vida dos outros com muito humor. Tudo isso fazia parte da nossa convivência, do melhor que podíamos extrair das oito horas diárias que passávamos juntos de segunda à sexta-feira.
Um dia foi demais: Ele bateu na minha porta, pedindo permissão para entrar. Balancei a cabeça num sim risonho, pois já sabia que vinha história. Então ele começou a contar que uma senhora obesa havia-se entalado na roleta e que o coletivo teve de ser levado para a garagem. A situação não era cômica, mas ele me contava com tanta indignação que só me restava rir.
As meninas de pernas roliças, olhos amendoados e cachos bem definidos eram lindas. A coleção toda era muito linda. Tinha ruiva, loura, morena e negra. De blusa de alcinhas, calça saint-tropez e tamanquinhos, elas são a expressão da realidade das adolescentes. Os traços que ele dá a elas é perfeito; exímio desenhista.
Um dia foi demitido. Nunca mais tive notícias. O que sei sobre ele vem pelos outros. Recentemente perdeu o irmão mais velho para a violência urbana, mas soube que está superando bem a perda.
Éramos amigos e eu nem tinha me dado conta.

Para Augusto


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