LI E GOSTEI

“Quem tem amor e tem calma, tem calma... Não tem amor...”
A. Tavares

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

OLHOS DE QUÊ?

Ela entrou devagar, seus movimentos eram lentos por causa da idade um pouco avançada. Ele, agarrado aos seus braços vacilantes, estava quietinho.

Parecia ter uns dois anos, não mais que isto. Meus estudos anteriores me ajudaram a chegar a esta conclusão. Mas isso é o que menos nos importa agora. Precisava ficar assim, quietinho, primeiro porque não falava; segundo porque o som que saía de sua pequena boca poderia denunciar a sua presença e os outros o colocariam para fora. Teriam, inclusive, o apoio da Lei se agissem desta maneira.

A cabine da polícia em frente ao mercado popular, que fica na próxima esquina, seria o lugar adequado para isso. Lá, certamente os canas saberiam o que fazer.
Dos lugares vazios que havia no coletivo, ela preferiu o que estava bem próximo a mim. Sentou ali e o pôs no colo. Ora um biscoito, ora um pedaço de pão adormecido... Ela oferecia a ele com muito carinho e cuidado para não machucar os dedos, e a cada recusa manifestada por ele, ela os comia. Nem a bala de caramelo se lhe escapou. Nauseados ficávamos nós, não ela. Ela, com muita calma e naturalidade, comia tudo o que ele recusava, sem nenhum pudor.

Todos achavam aquela atitude inadequada. Na verdade, a cena toda era esquisita. De repente, ela se virou para mim e perguntou:
– Os olhos dele não são lindos? Eu, tomada de surpresa e sem poder formular outra resposta, disse ironicamente:
– É, parecem até olhos de gato.
Tadinho!
O que eu não esperava era que ela, como que se falasse com alguém muito alheio ao seu mundo, me afirmasse com ternura:

– Ué, mas ele é um gato!

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