Ela estava sentada atrás de mim, com uma menina no colo. Em certa parte da conversa, ela disse o nome da filha, mas eu, obviamente, não vou incluí-lo aqui. A idade eu posso falar: 2 aninhos. Vou dizer a idade da menina só para acrescentar que, por um momento, eu pensei: Puxa, a bichinha tão pequenininha já ouvindo a mãe mandando ver nos palavrões tão efusivamente...
Ela estava mesmo indignada. A amiga, do jeito que falava dela estava mais para inimiga, tinha aprontado feio com ela; dito para terceiros coisas que ela não admitia. Ela me pareceu uma mulher bastante decidida, direta, daquelas que não levam desaforo para casa e tiram satisfação. E ela estava doida para encontrar a tal amiga e botar em pratos limpos aquele desafeto. Sabe aquelas mulheres que a gente olha e pensa: Ih, é melhor nem falar nada, porque senão ela vai fazer o maior barraco. Esta análise rápida que fiz dela, me manteve virada para frente, mesmo querendo muito olhar para trás e ver a fisionomia das três. Em vez disso, coloquei o fone no ouvido, e busquei refúgio no suingue do Neo-yo.
Eu bem que tentei não participar daquela conversa, mas o tom era alto, uma conversa tensa para acontecer em um coletivo, às 7 horas da manhã de uma segunda-feira. Eu não tive alternativa a não ser facilitar para que o meu cérebro administrasse as informações auditivas que vinham do desabafo dela e da música Miss Independent.
Aquela – motivo da conversa e da aparente indignação da minha amiga de viagem – era ingrata, protegia a sogra e a cunhada, enquanto cuspia no prato de quem a auxiliava e tratava bem. Porém, o que mais indignava aquela que me incomodava enquanto eu tentava ouvir One in a million, que chegava pelo meu fone de ouvido, era o fato de ela só ter olhos para o marido. Um homem que, segundo ela, era um canalha, um aproveitador que enchia a mulher idiota (palavras dela) de chifres.
Para piorar o humor daquela que se intrometia entre mim e Champagne life, esse homem, apesar de mau-caráter, era amado, bancado e tratado como se fosse o único homem do mundo. Depois de desferir alguns elogios para o casal de amigos traíra, com toda a raiva do mundo ela largou esta: “Todo mundo sabe, inclusive ela, que o Fulano a enche de chifres. Bancadora de homem galinha! O Paulo que faça uma dessas comigo, que ele vai ver duas quentes e cinco fervendo”.
Depois de ter dito isto, ela se levantou, pegou a criança, puxou a cigarra e desceu. Dei uma olhadinha pela janela e pude vê-las na calçada. E cara, na boa, eu fiquei com pena do Paulo!
Se ele vacilar com ela hoje...L

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