Pois é... Ontem, durante um encontro total e completamente casual
e descompromissado, instalou-se uma discussão. E tudo começou porque eu
realmente não acreditei que ele estivesse sendo sincero no discurso que
apresentou. Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que, tecnicamente, o
discurso é uma série de enunciados que precisam ser concatenados para alcançar
um principal objetivo: externar o que se tem em mente, ou seja, aquilo que está
estabelecido interiormente como verdadeiro e definitivo.
Eu ouvi de tudo: que o homem é “galinha” por natureza; que
as meninas hoje em dia estão “passando na cara” e que se o menino não pega é
porque ele é viado; que os filhos só passam dez minutos com os pais e que, por
isso, são “teleguiados” pelos amigos e que isto não tem jeito. E foi justamente
a série de “não tem jeito” que pipocou em cima de mim que me impulsionou a
escrever estas linhas. Eu confesso que fiquei pasma porque são todas pessoas
esclarecidas e com total acesso à informação, o que me faz pensar que seus
filhos também sejam.
Aquela conversa que começou tão lúdica e singela andou tanto
que chegou a esbarrar no meu pré-projeto sobre Educação. Afinal, eles são pais...
pais modernos de uma nova geração ainda em construção. E se eles, esclarecidos
que são, com todo acesso à informação que têm, adotam o discurso do “não tem
jeito”, eu fiquei (e ainda estou)
pensando: como vai ser a sociedade que essas
crianças irão formar?
Que muitas meninas estão “passando na cara” nós estamos
carecas de saber; que os meninos podem ser tachados de viado por não levá-las
pra cama, pro banco de trás do carro, pro beco... nós também estamos carecas de
saber. Também não é nenhuma novidade para nós que os pais estão passando cada
dia mais tempo fora de casa, longe dos filhos, por causa de uma jornada de
trabalho exaustiva.
A fisiologia e a psiquê masculina e feminina são diferentes,
claro. Isto é cientificamente comprovado, e a nossa racionalidade não questiona
isto. Mas assumir o discurso que o homem é “galinha” porque isto faz parte da
sua natureza é o mesmo que aceitar a ideia de que ele não pode ser fiel nunca. E a
fidelidade é uma questão de moral e de bons princípios. Fidelidade tem a ver
com caráter e não apenas com mamilos, pênis, vagina e ânus (é, tem gente que
gosta e só sente prazer aí).
Porém, assumir o discurso de que o menino tem mais é que
pegar as meninas que passam na cara porque senão ele vai ser tachado de viado e
que ele pode não aguentar uma humilhação destas, é o mesmo que dizer que ele
deve fazer o que todos estão fazendo. Enquanto
que, na verdade, ir (ou não) na mesma direção da multidão e fazer as coisas
porque todos estão fazendo tem a ver com a construção da personalidade e com a aquisição de autoconhecimento e de
amor próprio.
Assumir o discurso de que os nossos filhos não dão ouvidos
ao que lhes falamos e orientamos é o mesmo que assumir a posição de pais
fracassados, enquanto que dar ouvidos ao
que os outros falam e seguir opiniões e conselhos alheios também tem a ver com personalidade e com
a visão da própria condição de ser pensante.
Moral, bons princípios, construção da personalidade,
autoconhecimento, amor próprio e visão da própria condição quanto cidadão são
processos cognitivos que a criança aprende dentro de casa, no seio da família
que a gerou. É fato que somos todos, sem exceção, influenciados pelo meio, mas
a extensão desta influência quem delimita é a própria pessoa, com base no
caráter que construiu.
Os dez minutos que passamos com os nossos filhos (estou
aproveitando o gancho que meu amigo me deu, na nossa conversa) devem ter uma
qualidade tal que suplante as horas intermináveis que eles possam ter de
conversas com os amigos. Quando filhos e pais estão juntos, por menor que seja
o tempo, tem de ser o melhor tempo do mundo, explorado nos mínimos detalhes, um
tempo aplicado (e não gasto) com muita demonstração de amor, carinho, respeito
e atenção. Daí, a menina não vai precisar se vestir como uma peça de carne maturada,
e o menino vai ter a consciência de que ele não é viado, boiola, gay, ou seja
lá o nome que se quiser dar, só porque ele prefere não ser empurrado pela
multidão, e fazer o que todo mundo está fazendo.
Ninguém é viado só porque não comeu a periguete. Um jovem
não entra para o mundo das drogas ou parte para um assalto à mão armada só
porque um colega disse que seria maneiro. Uma menina não fica grávida aos 11,
12 ou 13 anos só porque o namoradinho passou a mão nos seios dela; a menos que
seja um estupro. Fora as questões espirituais, isto tudo tem a ver com caráter,
com personalidade, com amor próprio, com autoconhecimento. Coisas que se aprendem com pai e mãe.
Eu, a exemplo de muitas, tive um namoradinho que me passou a
mão nos seios e apesar de ter sido bom, eu disse “pode parar por aí”. Minha
irmã do meio me ofereceu cigarro (que também é uma droga), eu dei um trago e
disse “eu não quero”. Célia Regina e Meire, minhas amigas de infância, tiveram
filho antes de nós concluirmos o Ensino Médio, e eu só "dei" aos 28 anos. Quanto
a isto, aqueles meus amigos da discussão disseram: Os tempos mudaram. Eu sei,
mas e daí? Então quer dizer que o tempo mudou, nós apagamos tudo o que nossos
pais nos ensinaram (se é que ensinaram) e agora educamos nossos filhos à moda
“vamu que vamu porque não tem jeito”.
Agir assim é o mesmo que adotar o comportamento de um povo milenar que dizia
“comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, ou seja, não há nenhuma
perspectiva de vida, vamos alimentar a carne, a bestialidade humana e morrer.
Pronto! É dizer aos pais de meninas “prendam suas cabras porque o meu bode está
solto” e coisas desta natureza. Pessoas esclarecidas falando assim eu inquiro,
buscando razões. Bem, ontem eu encontrei contradições.
O que entendo, do lugar de onde vejo isto, é que muitos pais
ignoram o seguinte: o fato de a menina passar na cara; o menino se envergonhar
por não se sentir obrigado a levá-la para cama ou a qualidade dos dez minutos de
conversa diária com um filho está neles mesmos, ou seja, na família que eles
mesmos construíram, na semente que eles mesmos plantaram.
Dizer que a carne é fraca, que o mundo está perdido e que,
por causa disso, as coisas não têm jeito é se eximir de culpa, é
transferir responsabilidades. Fato que
eu lamento.
Pronto, falei J
2 comentários:
Muito bom!!!
Obrigada pela leitura, queridona.
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