LI E GOSTEI

“Quem tem amor e tem calma, tem calma... Não tem amor...”
A. Tavares

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PRENDAM SUAS CABRAS PORQUE O MEU BODE ESTÁ SOLTO


Pois é... Ontem, durante um encontro total e completamente casual e descompromissado, instalou-se uma discussão. E tudo começou porque eu realmente não acreditei que ele estivesse sendo sincero no discurso que apresentou. Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer que, tecnicamente, o discurso é uma série de enunciados que precisam ser concatenados para alcançar um principal objetivo: externar o que se tem em mente, ou seja, aquilo que está estabelecido interiormente como verdadeiro e definitivo.
Eu ouvi de tudo: que o homem é “galinha” por natureza; que as meninas hoje em dia estão “passando na cara” e que se o menino não pega é porque ele é viado; que os filhos só passam dez minutos com os pais e que, por isso, são “teleguiados” pelos amigos e que isto não tem jeito. E foi justamente a série de “não tem jeito” que pipocou em cima de mim que me impulsionou a escrever estas linhas. Eu confesso que fiquei pasma porque são todas pessoas esclarecidas e com total acesso à informação, o que me faz pensar que seus filhos também sejam.
Aquela conversa que começou tão lúdica e singela andou tanto que chegou a esbarrar no meu pré-projeto sobre Educação. Afinal, eles são pais... pais modernos de uma nova geração ainda em construção. E se eles, esclarecidos que são, com todo acesso à informação que têm, adotam o discurso do “não tem jeito”, eu fiquei  (e ainda estou) pensando:  como vai ser a sociedade que essas crianças irão formar?
Que muitas meninas estão “passando na cara” nós estamos carecas de saber; que os meninos podem ser tachados de viado por não levá-las pra cama, pro banco de trás do carro, pro beco... nós também estamos carecas de saber. Também não é nenhuma novidade para nós que os pais estão passando cada dia mais tempo fora de casa, longe dos filhos, por causa de uma jornada de trabalho exaustiva.
A fisiologia e a psiquê masculina e feminina são diferentes, claro. Isto é cientificamente comprovado, e a nossa racionalidade não questiona isto. Mas assumir o discurso que o homem é “galinha” porque isto faz parte da sua natureza é o mesmo que aceitar a ideia de que ele não pode ser fiel nunca. E a fidelidade é uma questão de moral e de bons princípios. Fidelidade tem a ver com caráter e não apenas com mamilos, pênis, vagina e ânus (é, tem gente que gosta e só sente prazer aí).
Porém, assumir o discurso de que o menino tem mais é que pegar as meninas que passam na cara porque senão ele vai ser tachado de viado e que ele pode não aguentar uma humilhação destas, é o mesmo que dizer que ele deve fazer o que todos estão fazendo.  Enquanto que, na verdade, ir (ou não) na mesma direção da multidão e fazer as coisas porque todos estão fazendo tem a ver com a construção da personalidade  e com a aquisição de autoconhecimento e de amor próprio.
Assumir o discurso de que os nossos filhos não dão ouvidos ao que lhes falamos e orientamos é o mesmo que assumir a posição de pais fracassados, enquanto que  dar ouvidos ao que os outros falam e seguir opiniões e conselhos  alheios também tem a ver com personalidade e com a visão da própria condição de ser pensante.
Moral, bons princípios, construção da personalidade, autoconhecimento, amor próprio e visão da própria condição quanto cidadão são processos cognitivos que a criança aprende dentro de casa, no seio da família que a gerou. É fato que somos todos, sem exceção, influenciados pelo meio, mas a extensão desta influência quem delimita é a própria pessoa, com base no caráter que construiu.
Os dez minutos que passamos com os nossos filhos (estou aproveitando o gancho que meu amigo me deu, na nossa conversa) devem ter uma qualidade tal que suplante as horas intermináveis que eles possam ter de conversas com os amigos. Quando filhos e pais estão juntos, por menor que seja o tempo, tem de ser o melhor tempo do mundo, explorado nos mínimos detalhes, um tempo aplicado (e não gasto) com muita demonstração de amor, carinho, respeito e atenção. Daí, a menina não vai precisar se vestir como uma peça de carne maturada, e o menino vai ter a consciência de que ele não é viado, boiola, gay, ou seja lá o nome que se quiser dar, só porque ele prefere não ser empurrado pela multidão, e fazer o que todo mundo está fazendo.
Ninguém é viado só porque não comeu a periguete. Um jovem não entra para o mundo das drogas ou parte para um assalto à mão armada só porque um colega disse que seria maneiro. Uma menina não fica grávida aos 11, 12 ou 13 anos só porque o namoradinho passou a mão nos seios dela; a menos que seja um estupro. Fora as questões espirituais, isto tudo tem a ver com caráter, com personalidade, com amor próprio, com autoconhecimento. Coisas que se aprendem com pai e mãe.
Eu, a exemplo de muitas, tive um namoradinho que me passou a mão nos seios e apesar de ter sido bom, eu disse “pode parar por aí”. Minha irmã do meio me ofereceu cigarro (que também é uma droga), eu dei um trago e disse “eu não quero”. Célia Regina e Meire, minhas amigas de infância, tiveram filho antes de nós concluirmos o Ensino Médio, e eu só "dei" aos 28 anos. Quanto a isto, aqueles meus amigos da discussão disseram: Os tempos mudaram. Eu sei, mas e daí? Então quer dizer que o tempo mudou, nós apagamos tudo o que nossos pais nos ensinaram (se é que ensinaram) e agora educamos nossos filhos à moda “vamu que vamu porque não tem jeito”.  Agir assim é o mesmo que adotar o comportamento de um povo milenar que dizia “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, ou seja, não há nenhuma perspectiva de vida, vamos alimentar a carne, a bestialidade humana e morrer. Pronto! É dizer aos pais de meninas “prendam suas cabras porque o meu bode está solto” e coisas desta natureza. Pessoas esclarecidas falando assim eu inquiro, buscando razões. Bem, ontem eu encontrei contradições.
O que entendo, do lugar de onde vejo isto, é que muitos pais ignoram o seguinte: o fato de a menina passar na cara; o menino se envergonhar por não se sentir obrigado a levá-la para cama ou a qualidade dos dez minutos de conversa diária com um filho está neles mesmos, ou seja, na família que eles mesmos construíram, na semente que eles mesmos plantaram.
Dizer que a carne é fraca, que o mundo está perdido e que, por causa disso, as coisas não têm jeito é se eximir de culpa, é transferir  responsabilidades. Fato que eu lamento.
Pronto, falei J

2 comentários:

Leticia Moraes disse...

Muito bom!!!

Shirley disse...

Obrigada pela leitura, queridona.

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