LI E GOSTEI

“Quem tem amor e tem calma, tem calma... Não tem amor...”
A. Tavares

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CASA DE VERANEIO

Nossa, há quanto tempo não venho aqui! Que sensação! Sinto-me agora como quem chega em casa de veraneio, depois de muitos anos ausente. Mobília coberta, geladeira vazia, mas tudo ali, no mesmo lugar... pertencimento. Apesar de estarmos mesmo no verão, a expressão "casa de veraneio" saiu fortuitamente. Estava aqui, com minha própria companhia, lembranças e divagações, e comecei a pensar em mim mesma, na forma que sou; no quanto acho que já evoluí, de uns pares de anos para cá. Daí, lembrei-me de um texto que fiz para este espaço no início desta década. Era uma espécie de memorial que foi fluindo, assim, despretenciosamente. Na verdade, eu não poderia estar aqui. Por força do ofício, eu deveria estar no Word, transcrevendo, pesquisando, inferindo, interferindo, editando. Contudo, eis-me aqui, em um tempo para mim.
Voltando ao memorial de anos passados, ei-lo aqui, para o meu próprio, quiçá único, deleite:

Bio

Outro dia eu li um capítulo sobre visão deturpada da realidade, depois disso, meus cuidados aumentaram. Porém, como este é um espaço que privilegia a escrita, não vou me furtar esta oportunidade. Tenho certeza de que meus amigos saberão dizer se deturpei ou não a realidade dos fatos.
Sou uma pessoa bem-humorada, com uma visão superotimista da vida. A palavra difícil é rara no meu vocabulário. Gosto de brincar feito criança com a minha filha, com os meus cachorros; gosto de estar em família e de assistir a desenho animado. Eu gosto de comer a pipoca salgadinha que o meu marido faz; e de churrasco bem passado com legumes cozidos na água e sal regados com azeite extra virgem. Como sou cinéfila, a lista de preferidos é grande – lembro de ter ido muitas vezes sozinha ao cinema, porque minha mãe dizia que quem convida tem de pagar, e eu não podia me dar a esse luxo. Eu gosto de ir ao teatro e acho incrivelmente incrível o Cirque du Soleil; eu gosto de dançar e não consigo mesmo ficar parada ao som de Rhythm and blues e da bateria do Salgueiro; o que não significa, obrigatoriamente, que eu goste de carnaval.
Eu também gosto de ler. Leio de produções filosóficas à HQ, mas não é uma leitura descompromissada, não; é com marca-texto e lápis em punho. Tistu, o menino do dedoverde foi o primeiro, quando eu ainda estava nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Como minhas leituras não são descompromissadas, as descobertas de Tistu, que li àquela época, ajudam-me hoje a fazer a Laís dormir. Nada melhor do que ouvir a história do menino que mora numa grande casa –  a Casa-que-brilha – que fica na cidade de Mirapólvora, que virou Miraflores.
Machado de Assis e Clarice Lispector foram por imposição, mas Eça de Queirós, Aluísio Azevedo, Guimarães Rosa, C S Lewis, John Maxwell, Marilena Chauí  e Paulo Freire, por admiração. A Palavra de Deus é amor intrínseco, é regra de conduta para a sobrevivência.
Voltando, eu gosto da sexta-feira, de amarelo, do número 7, da discrição, e São Januário é o meu caldeirão. Eu também gosto de tatame por isso sou faixa laranja de Karatê e pratiquei Tai chi chuan. E sobre este aspecto, não há nada mais bonito do que um Mawashi ou um Magueri bem aplicados, encaixados. Continuando, eu gosto de conversar... sobre tudo, desde o que acontece no reality show à cena final do filme Infidelidade, com Richard Gare e Diane Lane. Um pulo entre o que se pode comprovar com os olhos e o subjetivismo justificado em pistas sutis.
Eu gosto da justiça; da fala sincera e sem rodeios, porque eu acredito que a mentira é uma arma perigosíssima, também acredito na máxima “colhemos o que plantamos”. Aprendi que o perdão não é, obrigatoriamente, reconciliação e que dar a outra face não tem nada a ver em se transformar em saco de pancadas de gente sem escrúpulos.
Eu gosto de animais. Eu gosto de plantas. Eu gosto de CSI Las Vegas e de House. Também já gostei de Vila Sésamo, do Sítio do Pica-pau Amarelo, da Super Vicky, do Barco da Lucie, da Ilha da fantasia, de Magnum, de Casal 20, das Aventuras de Daniel Boone, de Viagem ao fundo do mar e do Poderoso Benson. Também já gostei de Domingo no parque, de Qual é a música, de Roletrando e do Cassino do Chacrinha. Também gostei do seminário Literatura e Jornalismo, na Academia Brasileira de Letras, e do congresso Escritores de Língua Portuguesa, especificamente da fala do acadêmico,  professor Domício Proença Filho.
Eu sei de onde vim, quem eu sou, em quem eu creio, onde estou e onde quero chegar. Eu aprendi, desde tenra idade, a vencer os meus medos e a resolver os meus problemas. Hoje sei que as aflições pelas quais já passei não foram à toa, ou sem propósito. Nada é sem propósito. As marcas que tenho, gosto delas porque fazem parte da minha história. Sem elas eu não seria eu. O espaço negro que aparece na parte direita traseira do meu cérebro, quando visto no exame de ressonância magnética, é resultado da falta dos neurônios que "fritaram", quando eu tive um AVC aos 33 anos de idade, mas posso garantir: Tenho excelente memória.
O leite derramado tem prazo (curto) para ser lamentado, porque eu me levanto rápido, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Eu sei o que eu falo; eu assumo o que eu faço; eu não culpo ninguém; eu não sacaneio ninguém. Eu sei pedir perdão.
Bem, acho que posso resumir dizendo que sou essa mistura posta de frivolidade e circunspecção (ou fechada, como costumam me dizer). Eu consigo sair de C S Lewis e partir para Maurício de Sousa sem problemas. Eu rio fácil, eu choro fácil. Sou capaz de roubar o tempo do meu interlocutor da mesma forma que sou de ficar calada ou simplesmente na minha. De acordo com a consciência que recebo de Cristo, eu vivo a plenitude do meu ser, ou seja, se posso chorar, eu choro; se posso rir, eu rio; se posso gargalhar, eu gargalho; se posso ir, eu vou; se posso ficar, eu fico; se posso calar, eu calo; se posso falar, eu falo; se posso dançar, eu danço; se posso cantar, eu canto. Daí, enquanto escrevia estas linhas, consegui entender os que têm uma visão inverossímil de mim. Talvez eles tenham desfrutado de só uma parte de mim, e não deram a eles, ou a mim, uma nova oportunidade.
Ah, já ia esquecendo de dizer que às vezes sou chatinha, por causa da minha mania de ser didática e perfeccionista, mas no geral sou gente muito boa e generosa e companheira. Por fim, eu sou professora por formação – minhas brincadeiras de boneca acabavam comigo dando aula pra elas (que loucura!) – sou uma pessoa apaixonada pelo conhecimento, pela cultura, pelas artes, pelas letras, pela palavra escrita e combino bem com todas essas coisas.

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